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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

"ALICE MANDOU UM BEIJO"

Suzana Nascimento (Jandira) e Vivian Sobrinho (Oneida), em "Alice mandou um Beijo", texto e direção de Rodrigo Portella) (Foto Divulgação) 

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
      Depois de assistir Tom na Fazenda, no Rio de Janeiro, fiquei intrigada com o olhar do diretor Rodrigo Portella, e resolvi assistir  Alice mandou um Beijo, do qual ele é autor e diretor. Em "Alice...", Portella resolveu lembrar momentos de sua infância em Três Rios (RJ), e estabelecer o seu texto. Interessante notar que ele, Rodrigo, não se transforma em personagem saudoso, ou magoado, relembrando um tempo. Muito pelo contrario, o que podemos observar em seu texto é apenas a observação de uma família do interior, com suas peculiaridades.  
     Como sabemos, há famílias e famílias. No caso de Rodrigo, há o aporte de um de seus membros ser "anormal em excesso", possuindo um defeito difícil de ser combatido, um autismo de grau elevado... e ativo! - (excelente desempenho de Luan Vieira). Em vista da "anormalidade" de Roberio (Luan), todos os outros membros da família se sentem magníficos, tentando colaborar para o seu restabelecimento.
     Ora, o fato de os membros da família se sentirem normais deixa-os livres para interferirem na "normalização" do menino. Este movimento em torno de Roberio vem a ser a "costura" da peça, tornando-se (o movimento)  obsessivo. Mas quem já não presenciou obsessões até nas famílias mais sensatas? Conviver não é fácil, daí o óbvio.
     Mas Roberio sabe nos surpreender, e a cena final "se rebelando contra a chatice da família ao querer dar-lhe "festa de aniversario", é muito boa. Embalado na tentativa de compreender o menino está seu tio postiço Oswaldo - viúvo de Alice - (interpretado pro Ricardo Gonçalves).
     O elenco é excelente, sutil em sua loucura, pois sem essa qualidade - a sutileza louca, diabólica! - a peça não se sustenta. Não que ela não seja boa, que sua escrita não tenha qualidade - tem - mas o assunto já foi explorado de diversas maneiras. Aliás, as historias são sempre as mesmas, o que as diferem umas das outras é a sua maneira de contá-las. Ponto para Rodrigo.
     Sigamos: há Jandira (Suzana Nascimento), nos matando com aquela sua disposição de ser vítima. Há a "hiena" Oneida (interpretada por Vivian Sobrinho), que é destinada a se dar bem na vida (será?). E, por último, mas não menos presença forte, Marcos Árcher, interpretando o pai. Nenhum dos atores perde a medida do que está fazendo, dizem que isso é mérito da direção, deve ser, porque Rodrigo Portella deixa a sua marca. E há a cena da água, uma delícia, onde tudo se acalma. E há a cena do giz, que a tudo desloca.

     Devemos acrescentar que, como escrita teatral, o texto de Portella serve ao que se propõe. E temos uma ficha técnica excelente: Trilha Sonora de Leo Marvet. Iluminação Renato Machado. Figurinos (atuais) de Daniele Geammal. Cenografia (uma sala de jantar "tipique"), de Raymundo Pesine e Rodrigo Portella. Produção Executiva: Maria Albergaria. Assessoria de Imprensa: Catharina Rocha.        

sábado, 27 de janeiro de 2018

"O PRINCIPIO DE ARQUIMEDES"

Resultado de imagem para fotos o principio de arquimedes teatro
Cirillo Luna (Rubens); Helena Varvaki (Ana); Sávio Moll (David); Gustavo 
Wabner (Heitor), em "O Principio 
de Arquimedes", direção de Daniel Dias da Silva (Foto Zero8Onze)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
     
                    
     Eis algo que me  deixou profundamente impactada, ao ver a suspeição crescer e se tornar um caso concreto, aflitivo, na peça "O Príncípio de Arquimedes", do dramaturgo catalão Josep Maria Miró. Claro que tal "principio" nos remete a algo muito remoto, talvez a algum estudo que  tenhamos feito no ensino médio, quando estudamos algo sobre física, e o vemos enfocado no programa da peça: "um corpo estranho entra em choque com uma massa fluida e causa repulsão, ou expulsão". Tal frase poderia ser a sinopse do espetáculo.

     O impacto imaginado, ao ver o titulo da peça e a singeleza com que os fatos se definem, não nos leva a seu terrível final. Nós não estamos preparados para ver a força da "expulsão" crescer e se tornar tão destruidora! 

     Pela primeira vez encenada no Brasil, a peça põe em questão a nossa imaginação e o impacto causado sobre ela, pelo mal entendido que aporta, enfatizando os tempos difíceis que vivemos agora. E, a propósito, há uma cena de Ana, em que a proprietária da escolinha (interpretada com interioridade e emoção por Helena Varvaki), revela que vivemos um tempo em que o preconceito e a suspeição comandam. E Ana nos leva a relembrar quando as pessoas podiam estar com os seus, brincar com seus corpos, ser carinhosas, não acarretando a malícia doentia que cerca os nossos dias.   

     O desenvolvimento da peça mostra a reação - em um crescendo - da empresaria dona da escola de natação para crianças, contra um dos professores, o sensível Rubens (ótima interpretação de Cirillo Luna), e nos dá a presenciar a força do "empuxo" que leva à desagregação das amizades e dos sentimentos. 



     "O Principio de Arquimedes" trata, com muita propriedade, da força da suspeição. Temos em cena quatro atores que vão desenvolver um problema que atualmente preocupa pais e professores: o tratamento "diferenciado" entre crianças e adultos, e sua repercussão na vida dos mesmos. Esse problema surgiu da intensidade insana com a qual os sentimentos são discutidos, hoje em dia, em nossa sociedade.  
  
     David, o pai do pequeno Daniel, um dos alunos, não "o" aluno - entra em contato com a diretora da escola para se informar sobre os acontecimentos na mesma. David é interpretado por Sávio Moll, com justa (e ameaçadora) intervenção.

    O cerco vai se fechando sobre o bom e sensível professor Rubens, e a peça vai se estruturando para colocar a nu os bons sentimentos. E não erramos. Cada vez mais o professor acusado é cercado de suspeição, tendo até o seu bom companheiro de escola, o também professor de natação Heitor (interpretado por Gustavo Wabner), começado a suspeitar do colega.

     Vocês podem imaginar aonde vai parar essa historia? No pior dos becos, é claro. Bom texto, excelentes interpretações, direção original e criativa de Daniel Dias da Silva, que também é o tradutor. A cenografia, muito comentada, é de Claudio Bittencourt. O cenógrafo coloca a divisão do palco, e objetos de cena, em tal disposição que é possível contar a mesma historia de dois pontos de vista, tentando enfatizar o que realmente aconteceu. Os figurinos, muito apropriados, tanto os que compõem o trabalho do dia-a-dia dos professores, como o mais sóbrio, da proprietária da escolinha. Figurinos de Victor Guedes. A Preparação Corporal dos atores é feita pela coreógrafa Sueli Guerra. Trilha Sonora Original de Tibor Fittel. Guitarras e estúdio: Clauber Fabre. (Cotação CINCO ESTRELAS)

    




quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

"JACQUES E A REVOLUÇÃO"

Katia Iunes e Abilio Ramos em "Jacques e a Revolução", direção Theotonio de Paiva
(foto MarQo Rocha)

Abilio Ramos, Sol Menezzes, Marco Aurelio Hamellin e Katia Iunes em "Jacques e a Revolução" direção Theotonio de Paiva, texto de Ronaldo Lima Lins (inspirado em Diderot).
(Foto de MarQo Rocha) 

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     Ora, ora, ora, quando menos se espera, encontra-se um texto extremamente inteligente, sutil e universal, levando-nos à apreciação do bom teatro. Trata-se de "Jacques e a Revolução - ou como o criado aprendeu as lições de Diderot", de Ronaldo Lima Lins, professor emérito da UFRJ e premiado autor. Inspirado em Diderot, "Jacques, o Fatalista, e seu amo" - o espetáculo chamou a atenção desta crítica.
     O relato de Diderot contando a viagem do conde de Bougainville, o historiador-aventureiro do século XVIII, ao Atlântico Sul - mais propriamente até as Ilhas Falklands (Malvinas, Argentina), em direção ao Tahiti - nos trás suas aventuras e o delicioso relato desenvolvido entre o servo Jacques e seu amo e patrão. Faz lembrar Brecht, que escreveu bem depois "O Senhor Puntila e seu criado Matti", onde há essa troca "amigável" entre Matti e o Sr. Puntila, porém o patrão só fica amigo quando bebe. Há muitas cenas inspiradas neste entrecho, como, por exemplo, a feita no cinema por Charles Chaplin e seu patrão bêbado, e tantos outros. Porém, no caso de Lins, foi a Revolução Francesa que estabeleceu essa troca. Ao menos é o que fica subentendido, na manifestação de Jacques, que chega a cantarolar a Marseillaise...
     Mas voltemos a Lima Lins. Os "relatos" de Jacques, destacados com humor por Lins, são a delícia da peça e nos trazem acontecimentos ligados a outras épocas: historias de amores, perdas, desilusões, armadilhas. A narrativa de Jacques, bem-humorada, a tudo alcança. Entretanto, em seus encontros com o patrão (na peça um empresário moderno), a atualização da roda da fortuna fica por conta destes seres que representam o  destino: Jacques e seu patrão. Daí o titulo dado por Lima Lins, a partir de "Jacques, o Fatalista", de Diderot. O Jacques de Lins também é um fatalista.
     A diferença (grande), que existe entre o texto de  Bougainville e os relatos de suas viagens, escritos por Diderot - e modernizados para o século XX, no atual 'condensado', relatam a situação dos seres humanos do século XXI! O diretor Theotonio de Paiva aproveita muito bem essa relação ao colocar em cena duas atrizes (ótimas, por sinal: Sol Menezzes e Katia Iunes), preenchendo com malicia os acontecimentos relatados por Jacques. Os mesmos são narrados pelo historiador e conde Bougainville, em suas aventuras pessoais. Elas se passam na ilha de Tahiti, cujos costumes amorosos se assemelhavam ao paraíso na terra.  
     Na montagem a que nos foi dado assistir havia referências também a hinos italianos (cantarolados por Jacques), e textos que recordam "Ubu Rei", de Jarry, junto a outras "iluminesciências" de nossos tempos. Tudo muito divertido e inteligente, graças à maneira como foi desenvolvido o espetáculo, e o desempenho dos quatro atores - aí incluídos também os excelentes Abilio Ramos e Marco Aurelio Hamellin, respectivamente Jacques e o 'Empresário Moderno', que parece se preocupar com os seus "dependentes".
     É incrível essa máquina azeitada que torna o jogo cênico possível. Em todos os sentidos. Diz o diretor Theotonio de Paiva que seu grupo tem entrosamento, costuma trabalhar junto há alguns anos e, realmente percebe-se, no acabamento do produto, o resultado esperado. O cenário, criativo, é composto por correntes e enormes carretéis de construção para grandes empreendimentos, e para o que mais vier. Quanto à expressão corporal (meus amores!) foi delegada a responsabilidade da grande coreógrafa que é Carmen Luz. Ponto para o espetáculo! Na Trilha Sonora temos Caio Cezar e Christiano Sauer, dupla que, segundo Theotonio, está afinada desde sempre com o seu trabalho. Muito boa, a trilha sonora. A Iluminação é de Renato Machado, "o iluminador que faz a luz falar" - cito-o sempre. Nota 10 para a Ficha Técnica, não esquecendo a Assistente de Direção Flavia Fafiães e Direção de Arte de Marianna Ladeira e Thais Simões, que deve ter caprichado nos figurinos. Produção 'NONADA' - Arte e Cultura contemporânea         
                  O texto de apresentação da peça, no programa e no livro, "Jacques e a Revolução" é de Theotonio de Paiva, e tem no livro, como subtítulo do mesmo "o tabuleiro de quadrantes alternados", se dispondo a esclarecer o caminho do  diretor em seu trabalho, e dando uma avaliação letrada do que vai acontecer em cena. E os motivos anteriores (narrativa da historia), que o levaram a ele. Trata-se de um livro que pode acompanhar o espetáculo. Editado pela "Aves de Água".  
     O texto de Theotonio, no livro, é rebuscado e esclarecedor, em sua ênfase na cultura: "Uma visada contemporânea - como diz o diretor - "o teatro dentro do teatro", com lacunas a serem preenchidas pelo espectador. É o mistério da condição humana".
      E há, no espetáculo, uma pergunta recorrente que Jacques e seu Empresário se fazem, sem conseguir resposta: "quem é mais digno de pena, o que bate ou o que apanha?" e neste jogo entre Empresário e Jacques o público navega em várias direções. É a  Historia, com suas armadilhas e contradições'. É Brecht! ... e fica a pergunta: "ainda há algo a fazer?"
     Insisto: é uma apresentação sem pretensões a ser "o grande espetáculo da temporada"... MAS O É!  (+) (Cotação: Cinco Estrelas). 

sábado, 20 de janeiro de 2018

"TOM NA FAZENDA"


                             

                Vaz, Babaioff e o olhar de Ecard em "Tom na fazenda",
direção
    Rodrigo Portella (foto divulgação)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     Eis uma peça de teatro difícil de julgar, porque apresenta uma mistura de situações - diria estilos - que não se enquadram na convencional maneira de analisar texto e interpretação. Trata-se de um drama? De uma tragédia? De uma tragicomédia? O único que sabemos sobre ela é que dá  ocasião (enorme) para quatro atores mostrarem sua capacidade de atuação.
     Algum crítico menos prevenido poderia considerá-la pós-moderna (?) pelo fato de envolver tantas linguagens cênicas? Ou talvez um drama moderno no estilo dos norte-americanos Eugene O'Neill, Tennessee Williams e outros tantos? Fica a questão. O fato é que ultimamente o teatro moderno tem dado passos inacreditáveis em direção ao horror. Passemos a essa historia de horror. Insisto: comedia?
     Eis o tema: sofisticação/em confronto com primitivismo. Bons sentimentos/em confronto com desconsideração pelo próximo. Enfim, o texto apresenta... o que uma boa educação católica condena! Pois é. Escrito por um canadense da região do Quebec, portanto, de ascendência francesa, onde se misturam bons celtas, e não menos ótimos latinos. Vá entender! Ou talvez seja por isso mesmo que a confusão se estabelece. Com pitadas da "idiotia rural" de Marx! O tema é a selvageria, e está preparada a sopa. Vamos a ela.
       O nome do autor é Michel Marc Bouchard. Seu texto ultrapassa os de Bernard-Marie Koltés, outro autor que atrai (no bom sentido) a juventude - ou os não tão jovens assim - de hoje. Amo Koltés. Pois bem, digamos que Bouchard não possui tanta sutileza assim, o que se propõe fica escancarado. Ah! Se fica!
     A começar por Kelzy Ecard, a nossa Bette Davis moderna (o olhar!), que já começa mostrando a vida miserável a que o ambiente rural a levou! Seu personagem, nada fácil, escancara os preconceitos e a má vontade que podem se estabelecer em um ser humano levado a viver sem perspectivas. Enfim, outra interpretação magistral de nossa querida Kelzy.
     Em matéria de atrizes a peça está bem provida. Há uma comediante nata, Camila Nhary, que possui um inglês cachorral e se sai muito bem na confusão reinante. Claro, e "quem parte e reparte fica com a melhor parte, ou é bobo..." etc, etc... os homens botam pra quebrar! Só dá eles! Armando Babaioff (nunca o tinha visto em cena, surpresa), é o idealizador do projeto, o tradutor da peça e um dos personagens centrais. Realiza, com perfeição, os papeis que se atribuiu. Parabéns. (Ele interpreta Tom, o sensível e urbano Tom).
    Em contraponto temos o irmão de seu namorado morto, interpretado por Gustavo Vaz, em papel tão selvagem quanto se imagina ser a vida na roça. Ou pior. A fazenda está matando aquele homem. Talvez, desde Marlon Brando, em "A Street Car...", tenha visto tanta selvageria. Não, Vaz é mais selvagem ainda.
     Enfim, sobrevivemos todos a tanto primitivismo. Em matéria de teatro e desempenho dos atores - Nota 10.

FICHA TÉCNICA: Além do já citado tradutor e ator, temos: Direção: Rodrigo Portella (outro que tenho ouvido falar muito, e que fico devendo presença). Como diretor, penso que Rodrigo é uma grande aquisição para o nosso teatro. Cenografia da sensível Aurora dos Campos, que consegue transformar o palco em um circo de horrores, auxiliada pela iluminação de Tomas Ribas (destaque para Babaioff/Tom encerrado em um portamalas de carro!). Figurino contemporâneo de Bruno Perlatto. Direção Musical Marcelo H com guitarras e violão, acompanhado por Jr. Tostoi. Preparação Corporal Lu Brites (não a conhecia. Excelente!). Coreografia: Toni Rodrigues.                      

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

"TRIPAS"

Ricardo Kosoviski e as "Tripas". Autoria e direção Pedro Kosoviski.
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     Interessante como uma peça de teatro pode proporcionar várias leituras. No último semestre de 2017 estive fora do Rio e, em conseqüência, não assisti às últimas estreias do ano. Mas não fiquei sem notícia das mesmas, pois as nossas boas amigas do teatro, as da divulgação, sempre enviaram aos críticos press releases e convites para as estreias. Eu não pude corresponder aos cuidados de Catharina Rocha, por exemplo,  porque estive em andanças entre Rio Grande do Sul e Amazonas,  aproximando-me dos afetos.
     Felizmente há a retomada, há as reestréias. E este 2018 já me proporcionou assistir "Tripas" e "Tom na Fazenda" - sendo que os próximos teatros serão "Boca do Inferno" e "Alice Mandou um Beijo"... E também há estreias! Como essa dos Fodidos Privilegiados, "Pressa", com direção de João Fonseca e Nelo Marreze. E também vem  Bia Lessa, de São Paulo, nos trazendo Guimarães Rosa e seu "Grande Sertão" nordestino.
         E viva o Rio de Janeiro!
     Ao recuperar, agora, as peças que não assisti em 2017, vejo-me na plateia de  "Tripas", texto de Pedro Kosovski, interpretado por Ricardo Kosovski. Eis que, a talentosa família (há ainda a filha de Ricardo, Lídia Kosovski, no cenário, e Marina Kosovski no design gráfico.
     O que quero dizer neste início inusitado de crítica (como também inusitado o espetáculo), é que fui assistindo e fazendo a minha "leitura" da peça e, quando vi aquela "lula" sendo jogada em cena por Ricardo, não a associei à semelhança com o intestino grosso (o ator carregou uma verticulite aguda), mas a considerei uma citação ao nosso ex-futuro presidente. Quando, no final, há o beijo entre homens, liguei-me nos episódios recentes em que o beijo entre iguais é abominado pelos 'cegos de plantão', e dei razão, mais uma vez, ao diretor (e autor) Pedro Kosovski. Pensei: "teatro é vida, e os acontecimentos políticos fazem parte da vida, por isso o teatro é tão perseguido".  
     Faz sentido, a minha interpretação. Aconteceu assim porque não quis me influenciar pelo press de Catharina Rocha! Tudo aconteceu por causa da minha teimosa: resolvi  assistir munida apenas de visão artística! Ledo engano. Segundo o autor, esta peça é "uma autoficção, onde falo através de meu pai".   
     Mas, impressionada com a interpretação de Ricardo Kosovski, comecei a pensar que temos, neste monólogo, um grande ator e seu personagem. Na verdade, a frase "eu quero agradar vocês", dirigida à platéia inúmeras vezes durante o espetáculo, eu a tomei como uma celebração da vida! Pois bem. A verdade é que a vida de Kosovski passou por um terremoto, e vamos reencontrá-lo com a sensibilidade à flor da pele! Sim, ele esteve entre a vida e a morte, e agora festeja a vida, e repete, às vezes de maneira carinhosa, às vezes obsessiva: "eu quero agradar vocês". Estas palavras referenciam a ação!
     E tudo começa no Golfo de Ácaba - fronteira do Oriente Médio com Israel, perto do Monte Sinai! - onde pai e filho foram buscar a sua historia, as suas raízes. E o texto se constrói a partir destas descobertas. É surpreendente a movimentação corporal de Ricardo, que já nos pega na primeira cena! À medida que a peça caminha as surpresas vão se multiplicando e desistimos da leitura "dos últimos acontecimentos políticos no Brasil", e embarcamos no talento do ator. O que Ricardo Kosovski nos proporciona são momentos surpreendentes de teatro. Estamos na presença de um dos grandes atores cariocas, seu domínio sobre a platéia é total. O inusitado da proposta nos dá a certeza de que testemunhamos algo excepcional: a doença e a cura - e, para a platéia não se recusa nada! Parafraseando Ricardo, trata-se de um trabalho que faz "Das tripas... autoficção"!

     Na Ficha Técnica temos, além dos já citados, a magnífica iluminação de Renato Machado e a música de Pedro Nêgo, com direção musical de Felipe Storino. (e direção de movimento - adorei! - de Toni Rodrigues). Assistente de direção Julia Stockler; Video: Lourenço Monte-Mór;  Interlocução  artística: Renato Ferracini. 

sábado, 9 de dezembro de 2017

"O DOENTE IMAGINARIO"

"O Doente Imaginario" - Molière, direção Jacqueline Laurence. Em cena: Argan, Belinha, Angelica e
Leo Thurler.
(Foto Guga Melgar) 


    IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)  

     Se até nossos dias os médicos ainda convivem com as incertezas da medicina, imaginem no século de Molière, o célebre comediante de Luis XIV, na França, século XVII. Pois é das incertezas da medicina que trata O Doente Imaginario, de Jean Baptiste Poquelin, o Molière, atualmente em cartaz no Rio de Janeiro, Teatro Eva Herz. O texto  do grande comediante francês coloca, na tradução e adaptação do  brasileiríssimo João Bethencourt, uma pitada de nossa chanchada à brasileira. Muito divertida, por sinal, com a direção de Jacqueline Laurence, especialista na matéria. Nas mãos destes três profissionais, o público pode contar com divertimento e crítica garantidos.

     Pois é. O que se passa no palco é que o pai (hipocondríaco) da jovem casadoira resolve arrumar genro e sogro para a filha, beneficiando-se da escolha. O doente quer estar cercado de pessoas que sejam úteis a ele, no campo de medicina, ou seja: quer-se cercado de médico e candidato a tal, pai e filho. Coloque-se uma pitada de esposa interesseira (a do hipocondríaco), e mais uma soubrette esperta, e está armada a cena.

     Mas para que o público dê valor ao que está assistindo há que ter um cenário envolvente: cortinas e bambulinas se esparramam em toda a cena (Colmar Diniz), facilitando as entradas e saídas repentinas dos personagens. Fica tudo acertado quando a cena é tomada pelos extravagantes figurinos do mesmo especialista. O acréscimo cômico se faz notar.

     Mas da comicidade encarregam-se principalmente o próprio doente, o velho Argan, interpretado por Élcio Romar, nosso conhecido de outras apresentações com a Cia. Limite 151 (de Glaucia Rodrigues, no papel da soubrette Antonieta, e Edmundo Lippi,  o mano elegante do doente, o Beraldo). De Élcio Romar assistimos a várias apresentações em comedias desta Cia.. Prazer em revê-lo. Temos ainda no elenco Márcio Ricciardi interpretando o Dr. (de olhar fanático!),  Thomas Laxante, e seu filho pretendente de Angelica. A filha de Argan que é a delicada Andressa Lameu.

     O elenco segura muito bem o ritmo da comédia, dirigida com mão firme por Jacqueline. Temos ainda a esposa interesseira, "Belinha", interpretada por Jacqueline Brandão, e o candidato a médico (e esposo) de Angelica, comandado pelo cômico Leo Thurler, uma figura. Nesta apresentação podemos assistir a comediantes avant la lettre.  Há ainda o sóbrio apaixonado por Angelica, Cleanto, interpretado por Gustavo Wabner. É impressionante o empenho com que o elenco passa seu recado de teatro popular francês criado por Molière. Na verdade, Martins Pena não perde nada para as suas comedias. Certamente os excêntricos figurinos de Colmar Dinz têm muito a dizer daquela época  na França.... Um achado.

     A iluminação, sem maiores invenções, é de Rogerio Wiltgen. Música apropriada para uma comedia de Molière, dirigida por Wagner Campos. Fotos de Guga Melgar e Direção de Produção de Edmundo Lippi. Divulgação João Pontes e Stella Stephany. ACONSELHAMOS. BOA DIVERSÃO PARA TODOS!            




sábado, 18 de novembro de 2017

"O JULGAMENTO DE SÓCRATES"

"O Julgamento de Sócrates", interpretado pelo ator Tonico Pereira, direção Ivan Fernandes. (Foto Victor Pollak) 


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"O JULGAMENTO DE SÓCRATES"
     Sócrates, o grande mestre de Platão, está entre nós. Todo fim de semana, de sexta a domingo, às 20 horas, ele tem um  encontro com as pessoas desta cidade através do primeiro monólogo do ator Tonico Pereira, realizado no Teatro Cândido Mendes, de Ipanema. O ator Tonico Pereira começa o   monólogo contando um pouco de sua vida, antes de chegar na cidade de "São Sebastião do Rio de Janeiro". Conta da influência que teve de dois "Sócrates" de Campos dos Goytacazes,  norte do Estado do Rio, onde nasceu:  um barbeiro amigo, e seu Xixi, um artesão. Foi através destes dois mestres que Tonico percebeu que estava na hora de procurar outro caminho, mudar a sua vida!  Ah! Se todos nós tivéssemos Sócrates como mestre! Tonico teve dois ...!  que o convenceram que  Campos estava pequeno demais para ele. Munido de coragem e boas intenções, nosso herói se mandou para São Sebastião do Rio de Janeiro, e foi aí que tudo começou. 


     A cada noite, depois do encontro inicial com a platéia, ele deseja a todos "Boa Sorte", e se encaminha para o lugar de Sócrates, e para a sua mudança no filósofo grego. Nesta comemoração de seus 50 anos de carreira, Tonico Pereira joga com duas presenças em cena: a sua, enquanto artista do nosso tempo, e a do filósofo - pai da filosofia ocidental -  Sócrates.

     O texto do espetáculo é de Ivan Fernandes (inspirado em Platão - "Xenofonte - Apologia de Sócrates":  "aquele que não se deixara corromper pelos tiranos, inimigos da democracia, e que lutara bravamente na guerra por sua cidade e por seu povo". 

     Dirigido por Fernandes (e por Tonico Pereira), "O Julgamento de Sócrates" dá ao público o poder da livre interpretação, fazendo com que as injustiças e as calunias contra os homens de bem, tão presentes nos tempos de Sócrates quanto do nosso, fiquem em destaque em nosso tempo, esse mal-aventurado presente, que pode ser modificado, com muita inteligência  e "cabeça!", exorta-nos Sócrates, com sua personalidade - e a de Tonico Pereira. Eles possuem empatia, e nos exortam a sermos Humanos. 

     O texto não pode ser mais simples e mais explicito: ele quer atrair a atenção dos "jovens de qualquer idade", e, como sua platéia é diversificada - ele conta também com os adolescentes - público presente e atento, absorvendo as  lições de vida de Sócrates. Trata-se de um espetáculo que pode abrir portas (bem-vindas) para o futuro. 

     É muito bom presenciar um ótimo ator externando as suas preocupações com os humanos. Não há, no espetáculo, receitas para um futuro melhor, há somente constatações, muito pertinentes, sobre os acontecimentos atuais... e um tratamento adequado - no sentido de não ser gratuito - alertando-nos para estes acontecimentos. As coincidências estabelecem uma "ponte" entre os tempos de Sócrates e o nosso tempo.    
         
     Tonico Pereira encerra a espetáculo com algo fundamental, falando, ao sair de cena, sobre sua angustia, dizendo ser ela a verdadeira mobilização que o leva a falar sobre assuntos que o preocupam; a ele, e a todos os que se interessam pelo futuro do Brasil.
     VIDA LONGA PARA "O JULGAMENTO DE SÓCRATES"!

     Na ficha técnica temos o cenário e a iluminação como coadjuvantes da ação. Iluminação de Frederico Eça, que também cria a Trilha Sonora, e Palloma Morimoto no Cenario e Figurino, muito adequados. O Figurino é um simples traje de algodão cru, que poderia ser usado pelos homens do povo de qualquer época. Voz em Off de Wagner Barreto. Direção de Produção de Caio Bucker. Produção Executiva e Turnê: Ricardo Fernandes.