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domingo, 23 de abril de 2017

A MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA


Três ótimos atores: Henrique Stroeter o delegado,  Dan Stulbach, o louco e Riba Carlovich
 o Secretario 

de Segurança em "Morte Acidental de um Anarquista", de Dario Fó.

Os dois amigos, Stroeter e Stulbach sonhavam em montar esta peça há muito tempo.
Em boníssima hora!
(Fotos: João Caldas Fº)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro (AICT)
(Especial)

     Mais Dario Fó é impossível. Este teatro de participação do público, circense, irreverente, nos traz a alegria de ver teatro como deve ser, com os acontecimentos palpitando, se renovando conforme o público, conforme a apresentação! Vi duas vezes, sempre com façanhas novas do momento político muito louco que vivemos. Mais louco só o personagem de Dan Stulbach criado por Dario Fó para seu próprio deleite (ele estreou a peça fazendo o louco). 
     Acontece que Dario se inspirou em um fato real, na sua conturbada Itália dos anos 60 (continua a mesma), no qual um anarquista foi "suicidado". O mais interessante do trabalho dessa equipe de atores (se é que podemos selecionar algum aspecto pois todos  se destacam) é a oportunidade que tem "o louco" para mostrar a compulsão que tem por novos personagens. Uma delícia. Só a interpretação de Stulbach já vale a ida ao teatro, mas temos ainda um elenco afinado como não víamos desde a versão quase amadora do nosso Brasil em "Terra Papagalli" contando a saga do degredado Cosme Fernandes, adaptada do livro de Torero e Pimenta e dirigida por Marcelo Valle.          
     O elenco (profissional) de "Morte Acidental" é composto, além de Stulbach e Henrique Stroeter - os idealizadores do espetáculo - (Henrique interpreta o delegado), e  de Riba Carlovicci, o secretario de segurança, e Maira Chasseraux, a jornalista,  e tem também Marcelo Castro como Bertoso, comissário de polícia e Rodrigo Beladona, o guarda. (Acho que não esqueci ou troquei ninguém... os atores paulistas não são nossos conhecidos). Dan faz, no início, uma ligeira apresentação dos mesmos, mas... mesmo anotando pode haver alguma troca!
      Ah! E tem também o impagável Rodrigo Geribello, ator e músico, interprete das mudanças de cena e dos ruídos ambientais. Muito bom. Claro, Dario Fó sabia o que estava fazendo em termos de comedia popular (não que o diretor Marcelo Valle, de "Terra Papagalli" não o soubesse), mas essa mistura de Commedia del Arte e teatro popular de Dario Fó deixa o público boquiaberto e participativo. Há ainda a viva contribuição do diretor Hugo Coelho, no desenvolvimento do espetáculo, e os "acréscimos" do elenco! Da segunda vez que assisti, o elenco divertia-se muito, mas  não mais do que o público. E as coisas que aconteceram na Itália (corrupção, morte, etc) acontecem agora no Brasil! Só mudou a geografia... 
     O teatro é um tabuleiro aberto... Imaginem a colaboração dos atores. Quando Henrique Stroeter faz o seu número de balé clássico (!) um dos atores comenta: "é um genérico de Ana Botafogo...!". Irreverente, popular. Mas a "desinibição" não fica só aí: o "louco" ama escândalos, e os da nossa republica atual, então, é um banquete para ele que comenta:: "o escândalo é o sal de frutas da democracia". Quando o "louco" se traveste em um juiz colaborador cria uma metáfora: apelida a agressão policial (habitual)  de "massagem terapêutica". Querem mais? E a repórter, coitada (a ótima Chasseraux) tentando cumprir o seu papel (dessa vez a imprensa parece interessada realmente em apurar os fatos) e recebe até tapa na b...! Será que exagero? Ah! O "louco" obriga os dois policiais a cantar Vandré: "Caminhando e cantando..." Hilário. NÃO PERCAM!        
FICHA TÉCNICA:
Autor: Dario Fó. Tradução: Roberta Barni. Direção Hugo Coelho. Música e sonoplastia: Rodrigo Geribello. Cenário: Marco Lima. O Figurino (ótimo) é de Fause Haten (engraçado, fiquei com a impressão de que o juiz aparecia com a capa preta, na primeira vez que assisti, e não com um capote xadrez, como da segunda vez. Será verdade?). Produtores Associados: Selma Morente, Célia Forte e Dan Stulbach. Assessoria de Imprensa Rio: Eduardo Barata.   


terça-feira, 11 de abril de 2017

UM AMOR DE VINIL

Françoise Forton e Mauricio Baduh em "Um Amor de Vinil", texto de Flavio Marinho, direção André Paes Leme.

IDA VICENZIA
( Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial Rio)

     Flavio Marinho nos traz à cena um momento de romantismo e comedia com o seu texto "Um Amor de Vinil" fazendo o público transitar entre compositores como Getulio Cortes, na música imortalizada por Luiz Melodia, "Negro Gato", que Françoise Forton interpreta, abrindo a cena com muito humor e ironia. A direção é de André Paes Leme, e essa é uma estréia do Teatro Fernanda Montenegro, no Leblon. São 22 canções românticas, embaladas pelas vozes de Mauricio Baduh, Françoise Forton e Marco Gérard, ator e músico, e Gustavo Salgado no teclado.
     Forton revela seu talento para a comedia, apresentando um "tempo" único para se relacionar com o público. Dotada de uma interpretação sensível, sua voz é explorada com muita competência, dando-lhe ótimos momentos, como em "Nasci para Chorar", música na qual Françoise mostra a que veio, ou seja: encantar o público. Também Mauricio Baduh nos dá uma grande revelação com seu timbre de voz que remete a Roberto Carlos. A dupla tem momentos ótimos. Não podemos deixar de nos referir ao grande final, quando "Falando Serio" é cantado por Baduh e interpretado por Forton, que transmite o sentimento da canção através de sua expressão facial. Momento marcante.       
     O texto de Flavio Marinho faz, com muito humor, alusões críticas aos críticos, a certos musicais e às peças "papo-cabeça". E, sim, Marinho coloca o problema do "alemão" e do "inglês" (Alzheimer e Parkinson) brincando com os "esquecimentos" de Amanda (Françoise Forton). Aliás, o texto brinca também com a morte... com um certo humor funébre. Há, neste texto de Flavio Marinho, um leve despertar da linguagem de hoje, perpassando a troca de papéis entre o homem e a mulher, transmitida através das canções. Observamos que "Começar de Novo" é cantado pelo homem, voltando às raízes, pois Ivan Lins e Getulio Costa a compuseram propondo a liberdade e o renascer do amor, porém a cantora Simone dela se apropriou, tornando-a praticamente um hino  feminista!
     Não sabemos se Marinho e Paes Leme (na direção), tiveram a iniciativa de "espicaçar" esse lado do relacionamento amoroso, a liberdade feminina, em homenagem ao momento muito particular em que vivemos: o relacionamento homem/mulher. O certo é que "Negro Gato" é cantado por uma mulher... embora meio maluquinha, uma empreendedora (tem um negócio, uma loja da discos de vinil muito procurada), o que já é uma proposta de liberdade financeira. O autor chega perto da discussão dos papéis sociais, e como esse não é o tema da peça... fica somente a sensação da liberdade da mulher e da fragilidade do homem! Eis um caminho novo para os novos musicais...    
     Figurinos: do cotidiano, de Ticiana Passos. Direção Musical Liliane Secco. Iluminação Paulo Denizot. O Cenário de Carlos Alberto Nunes convive com o outro espetáculo da produção "Nós sempre teremos Paris..." e a "loja" se transforma em um "bar", permanecendo nele os muito bem bolados cubos portáteis com imagens dos antigos discos de vinil... Direção Coreográfica de Marina Salomon. Produção Barata Comunicação. É  BOM  VIVER  ESTE  MOMENTO  DIVERTIDO!      





    

segunda-feira, 3 de abril de 2017

RENATO RUSSO







     Bruce Gomlevsky em "Renato Russo", direção de Mauro Mendonça Filho, texto de  Daniela Pereira de Carvalho. (Foto Guga Melgar).


IDA VICENZIA
(Da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
RENATO RUSSO

     Em cena, em curta temporada, temos o regresso de "Renato Russo", dessa vez no  Teatro das Artes. Como sabemos, este é um espetáculo que deu todos os prêmios a Bruce Gomlevsky, e à equipe do espetáculo, pelo desempenho excepcional que apresentaram. O texto, de Daniela Pereira de Carvalho destaca, com acerto, as principais passagens da vida de "Russo", aliás, um nome escolhido pelo jovem Renato Manfredini Jr., quando resolveu assumir seu talento. O texto - e sua vida - estão muito atuais. Renato viveu na época da ditadura militar... Não esqueçamos que uma das composições marcantes deste poeta é "Que país é esse?" - canção que se tornou um grito de guerra contra a injustiça, e que inspirou muitos poetas. Nada mais atual, essa Legião Urbana, a banda de Renato Russo, e nada mais atual do que relembrar as composições de Renato.  Vale à pena assistir novamente Bruce Gomlevsly - para quem já o assistiu - e para quem ainda não teve essa experiência ... não deve perdê-la!
        Vamos a ela: um cenário funcional (de Bel Lobo), no qual a ação se desenvolve no interior de seu pensamento, recolhido em seu quarto, ou criando músicas e as interpretando, na presença de seu público. O acertado desenho de luz de Wagner Pinto faz a transfiguração dos tempos, e vemos tudo acontecer na nossa imaginação, e ao vivo, no desempenho de Bruce Gomlevisky! A direção de Mauro Mendonça Filho revela um jogo premiado: o diretor soube aproveitar, com detalhes, todo o material precioso desta produção, contando com uma equipe de primeira. Além dos citados, temos a direção musical de Marcelo Alonso Neves e a música ao vivo da banda Arte Profana. Mas, o que impressiona mesmo, e dá vida aos momentos que passamos no teatro, é o desempenho de Bruce Gomlevsky. Antonio Abujamra dizia - quando deixou "seu lado ator" vir à tona - o quanto passou a amar melhor, a compreender melhor, o "metabolismo" destes seres maravilhosos. No caso de Bruce, tivemos uma experiência esclarecedora a respeito das palavras de Abu, ao compartilhar o espetáculo, e, principalmente, a cena em que ele canta "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã"... segurando as mãos do público e cantando... o artista que estava ali presente não era Bruce Gomlevsky, mas Renato Russo!  Essa sensação nos acompanha durante todo o espetáculo.
     Para quem não sabe, Renato Russo é um dos nossos artistas mais sensíveis e um de nossos poetas mais importantes. Viveu o seu tempo com entrega total, e soube criar os mais belos poemas sobre a nossa realidade... sobre o homem, e o que é o ser humano. Assim, simplesmente. Coisa de artista e seu "metabolismo". Desde a observação que tem sobre a vida, a sua delicadeza, e a revolta de não poder modificá-la.
     Renato Russo, o compositor que é capaz de suaves composições que são verdadeiros contos de amor (bem humorados) como em "Eduardo e Monica", no qual ele pergunta: ""Quem um dia irá dizer/Que existe razão/ Nas coisas do coração?". Foram mais de 200 composições, feitas por este coração aberto à emoções, e ele se desespera com: "Nas favelas do senado/ sujeira pra todo lado/ ninguém respeita a Constituição/ mas todos acreditam no futuro da nação", perguntando: "Que País é esse?" Ou  "Pais e Filhos" ... e tantas outras! Algo que não ser esquecido, realmente. Estão de parabéns os que tiveram a lucidez de reapresentar esse "Renato Russo" tão bem vindo. 
  
     Assistente de Direção: Ana Kutner; Figurino: Jeane Figueiredo; Videografismo: Rodrigo Lima, Cila Mac Dowell, Gustavo Vaz; Direção Vocal: Patricia Maia e Deco Fiori; Preparação Corporal: Daniela Amorim; Técnica de Alexander, Gabriela Geluda; Fotos Divulgação: Guga Melgar; Rede Social, Rafael Teixeira; Assessoria de Imprensa: Barata Comunicação
Produtores Associados: Bruce Gomlevsky e Bianca De Felippes
      
         
    




terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"ABAPORUTAÇÃO"

"Abaporutação" - espetáculo encenado em Manaus, pelo ator performático Dimas Mendonça, no Espaço das Companhias. (Foto Divulgação)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional dos Críticos de Teatro – AICT)
(Especial em Manaus)

“PENSA QUE SABE” é o nome do panfleto que recebemos no início da Performance Teatral “ABAPORUTAÇÃO”, no Espaço das Cias, teatro de Ricardo Risueño.  

     Que nome complicado é esse, que leva à Tarsila do Amaral e ao seu “Abaporu”? Pois leva mesmo... esse “gente que come gente” (que vem do Tupi Guarani, ou ‘Língua Geral’, como nós no Sul a conhecemos), alimenta um espetáculo que tem como subtítulo um ‘Processo Natimorto’. Vá entender! Há ramos e ramos dessa Língua Geral... dessa ABAPORUTAÇÂO, mas vamos ficar por aqui, nessa “natimorta” ação!

     Obedecendo a um impulso de assistir (e destacar) artistas e teatros experimentais das cidades que visito, e aproveitando a minha visita a Manaus, fui assistir a um dos bons atores da região, Dimas Mendonça, em cartaz ‘por um dia’, na performance criada por ele. Ao chegar ao teatrinho de Ricardo Risueño ficamos em dúvida se o público vai assistir ao espetáculo, aos personagens que irão ser retratados, ou à equipe  do teatro, que se desvela, proporcionando o espetáculo? Claro, fui assistir a tudo isso. Afinal, quem “Pensa que Sabe”? Como não temos nada a perder, fomos assisti-lo. (Só como esclarecimento: o ator em questão pertenceu ao extinto TESC (Teatro Experimental do SESC do Amazonas), fez parte de alguns grupos de palhaçaria de Manaus, e assistiu cursos em São Paulo. A seu favor, ainda, o público jovem que lotou o  pequeno “Espaço das Cias”, do paraense Risueño. O “teatrinho” está situado no quarteirão do Teatro Amazonas, “o local onde as pessoas se encontram”.

     Pois bem, em sua única apresentação, Mendonça escolheu seis personagens para representar a potencialidade de sua performance: primeiramente, um “amante do teatro” (um egocêntrico fanático); depois uma mãe amantíssima - seguida por um pastor evangélico; um cantor (que não consegue cantar, mas que, com o desenvolver da performance, encontra o seu tom), e também um bailarino. Pelo que podemos compreender, os personagens saem da criação do ator - que poderíamos chamar de ‘o diretor do espetáculo’.  (Não há ficha técnica).

     Como podemos perceber, essa é uma apresentação sem pretensão de receber criticas, tal a sua simplicidade, porém, a criação e o desempenho do ator é tão boa que é necessário registrá-la! Dimas incorpora também o personagem do raivoso “machoman”, e tal composição de “elenco de seis em um só ator” mostra o grau de desafio que o ator se propôs enfrentar.

    Ao chegar ao teatrinho recebemos uma pequena publicação, uma única folha de papel  – um ‘jornal’, o nº 1 - escrito pelo ator, e por amigos convidados. O “Pensa que Sabe” (assim se chama o jornaleco), convidou o poeta e acadêmico Aldísio Filgueiras, nome bastante conhecido e prestigiado em Manaus, para abrir o programa com um poema de sua autoria: “Ai de ti, Manaus”: ..”tu viste/na televisão/ o crime/ suprir/ tua lei – no teu olho – & preferiste/ voltar/as costas/ para o rio/ & a floresta//... Este poeta nos deve uma visita ao Sul, talvez para o lançamento de seu livro de poemas “A Dança dos Fantasmas”.

     Diz Mendonça, no "Pensa..." : ”Para um país invadido, um estado roubado e uma cidade inventada, um eterno esforço de reconhecimento de origens. Para isso, um inútil processo de pesquisa e experimentação artística numa busca burra pelo novo, diferente e original nas artes.” É o que veremos, a seguir. (Se é “novo”, e “diferente”, não sabemos... mas é inesperado, principalmente para quem visita a região), é o “grito” de um ator não deixando a sua arte cair no “oblivium”. A performance de Mendonça nos faz encontrar personagens fortes, angustiados, passíveis de crítica, caricatos, mas sempre em uma procura que se agiliza, conforme o espetáculo vai se desenvolvendo. Assim, temos, sempre as inesperadas reações do “amor ao teatro”, que levam o “ator-amante” representado a realizar malabarismos impensáveis para defender o seu amor. (A concepção, direção e desenvolvimento do espetáculo, inclusive a coreografia, é de Dimas Mendonça, que também atua). O ator interpreta o ‘bailarino’ - excelente - ou o ‘cantor’, que inicia desafinado e aos poucos vai encontrando o seu tom. A seleção de músicas - ou o que podemos chamar de ‘a trilha sonora do espetáculo’ é um destaque positivo, seguindo a proposta.

     Dimas Mendonça ultrapassa, com ímpeto, a todos os desafios. Trata-se de uma performance profissional que pode ser apresentada nos principais centros de nosso país. (ATENÇÃO, PATROCINADORES!). O desenvolvimento dos personagens vai em um crescendo quase insuportável, atingindo uma velocidade digna dos ‘modismos internacionais’ encenados, atualmente, nos teatros do Sudeste. Há o mesmo afã de contar histórias em 30 minutos!...  os outros 30 minutos do espetáculo sendo preenchidos pela comunicação de Dimas com o público... que interage com entusiasmo, terminando todos de mãos dadas com o ator!

     O que se apresenta no palco de Risueño, inclusive o  cenário, coberto de plantas, e com seus bancos surgidos no meio das “árvores”, onde as luzes se assemelham a borboletas noturnas, e onde o breu finalmente se estabelece - deixando espaço para uma luz ao fundo da cena, filtrada pelos vidros da "parede-janela" que integra o exterior, tornando-se a sua respiração! É a iluminação dos edifícios que, ao fundo da cena, se acendem e apagam. Um belo espetáculo extra, a luz dos edifícios. Elas dão um bonito efeito final ao espetáculo. Talvez o bom resultado de ABAPORUTAÇÃO dependa, mesmo, desse improviso, dessa união com o espaço exterior. Não sabemos se o espetáculo funcionará, com o mesmo encanto, em outro espaço cênico. Talvez sim. E talvez essa experiência funcione, em outros Estados do país. ONDE ANDARÁ O “ABAPORUTAÇÃO” AGORA?                
         


Final de ABAPORUTAÇÃO, com o comentado efeito dos edifícios que iluminam a cena. O 'Breu' veio depois... (Foto de Thais Vasconcelos e Fabiano Barauna). 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

CLARISSE ABUJAMRA E O LIVRO DE ABU

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

QUERIDA Clarisse! 

     Mando para você um trecho do livro de Antonio Abujamra "CALENDARIO DE PEDRA" - que escrevo). Gostaria que você completasse algo sobre você e Abu. (Sei que estás fazendo sucesso com novo espetáculo, em São Paulo. Quando vocês vierem ao Rio quero assisti-lo). Agora mando um trecho em que falo na família, nas mulheres artistas da família. Gostaria de me alongar sobre você, Clarisse, sua experiência como artista, com Abujamra. Pode ser? Estou fechando o livro e senti falta da sua palavra sobre vocês, que foram tão próximos.  O trecho (no livro) começa assim: 
 ______________________

     Maria Abujamra é a única "mana" viva. Maria é professora de expressão corporal para teatro, e (é) era sempre convidada por Abujamra para acompanhá-lo aos espetáculos, quando ele estava no Rio de Janeiro. Maria assinou, entre outros, a expressão corporal de "Exorbitâncias". A "mana" era boa companheira nos grandes momentos da vida de Abu. Fica a lembrança carinhosa da 'Família Abujamra' ... de seus filhos Alexandre e André. De Belinha...  e da querida Clarisse Abujamra que, mesmo sem saber, colaborou! Ela dirigiu o tio em seu primeiro monólogo "O Contrabaixo". O "histórico" de Clarisse é nosso conhecido: bailarina, atriz e diretora. Um de seus mais recentes trabalhos foi apresentado no Rio de Janeiro, em 2013. Um monólogo de sua autoria, "Antonio - da Tua Necessaria Poesia", sobre os três "Antonios" de sua vida, incluindo o tio-diretor. 

     Há muitas diferenças entre os dois projetos, o de Abu e o de Clarisse; principalmente pelo fato de o monólogo da atriz/bailarina ser sobre sua experiência de vida, o que não acontece com "O Contrabaixo". Clarisse está há mais de 10 anos nos palcos com o seu monólogo sobre os Antonios,  em intervalos e mudanças, inclusive as de direção, que no início era feita pela prima Márcia Abujamra, e agora Clarisse se autodirige. O seu "tio Totó" (é assim que os sobrinhos chamam Abujamra), apresenta sempre a sobrinha como "um grande talento". Há outras sobrinhas talentosas: entre elas, a atriz Yara Jamra, de voz metálica e vocação para a comédia. Yara adotou o nome original da família, o "Jamra" dos "Abu-pai". "Jamra" quer dizer "a que mantém o fogo acesso".


     Voltando à Clarisse ... (aqui você pode falar o que quiser sobre você, seu tio, sua carreira). O espaço é seu! Pode ser uma página, duas... um parágrafo! Como você se sentir melhor. Estou pensando em entregar o livro dia 31 de janeiro para o editor. Você pode me mandar algo sobre vocês para este e.mail? 
(vicenziada@gmail.com). Fico muito agradecida. Beijo e sucesso sempre! Feliz 2017!  Ida Vicenzia

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

"CABEÇA (um documentario cênico)"

Guilherme Miranda, Lucas Gouvêa e Leonardo Corajo em "Cabeça (um documentario cênico), direção de Felipe Vidal. (Foto Ricardo Brajterman)
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

CABEÇA – (um documentário cênico)

     Elenco em ordem alfabética: Felipe Antello, Felipe Vidal, Guilherme Miranda, Gui Stutz, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa, Luciano Moreira, Sergio Medeiros. 8 atores que se metamorfoseiam em 8 músicos, compondo a divisão clássica dos Titãs, a banda de rock que o grupo “Complexo Duplo” oferece ao público, para contar a historia daqueles anos 80, ainda de repressão militar. Esse é um detalhe histórico do espetáculo, mas – e é bom não esquecer - há outro detalhe histórico, que diz respeito ás mulheres: a banda nasceu em um tempo em que as meninas eram só as companheiras, as fãs. Mas isso é só um detalhe ... não vamos falar de Yoko Ono, e dos estragos que ela fez em uma conhecida banda. Isso não é dos anos 80!    

     Mas o que nos interessa, agora, é a homenagem que os atores do “Complexo Duplo” fazem aos Titãs, no “documentário cênico” de Felipe Vidal. Talvez essa banda rock-pop tenha tudo a ver com teatro, a começar pelo vocalista (ou ex-vocalista) Paulo Miklos, de ascendência grega? Miklos é o nosso “vocalista dramático”, que deu o que falar (assim como Arnaldo Antunes, Tony Bellotto), e outros músicos da banda, nos anos 80. Eles enfrentavam, pacificamente, a “banda podre” da ditadura militar.  

     Constatamos que é surpreendente o que os atores do “Complexo Duplo” conseguem com a própria voz, inclusive dar a impressão de que compõe uma banda! Eles relembram os tempos em que os Titãs viviam de música e ofereciam, anarquicamente, aos ouvidos dos jovens daqueles tempos, o seu compasso acidentado. Os atores músicos de hoje, do grupo de Vidal, oferecem ao público a sua própria historia. Tudo isso  acontece diante dos olhos e ouvidos do público, no palco do Teatro Sesc-Ginastico, no Rio de Janeiro, e irá acontecer novamente, em 2017! Mas não são os Titãs que estão no palco, são os atores do “Complexo” dando o seu recado.

     Os atores (em sua maioria) saíram dos bancos da CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), fundada pelo nosso saudoso Yan Michalski, que, com certeza, estaria agora felicíssimo com os frutos que ela deu. Os atores tocam seus próprios instrumentos, cantam e interpretam criando, realmente, um “teatro documentário”.

     Na verdade, não devemos nos surpreender tanto com isso, pois essa foi a intenção, bem sucedida, do diretor: o “teatro documentário”. Mas não podemos deixar de observar que os atores, em outros tempos, consideravam um grande desafio cantar, e se tornar crível como cantor. Agora, com esse “novo teatro”, ser ator-cantor se tornou uma capacidade para muitos, o que faz o ser humano entrar na categoria de um “Deus” que tudo pode. Esse é um fenômeno irresistível, e podemos fazer tal afirmação sem ironia ou espanto. Registramos esse “Cabeça (um documentário cênico)”, como mais um “musicaos”, não muito distante de “Contra o Vento”, de 2015, do “Complexo Duplo”. Portanto, Felipe Vidal foi o inventor de todo esse “imbróglio” músico/teatral, e tem conseguido fazer – ele e seus companheiros de cena - têm conseguido fazer-se acreditar em sua função de atores, cenógrafos, figurinistas, diretores... Não é uma leviandade, é uma realidade. O “sapiens” ocupa todos os espaços, e os companheiros do “Complexo Duplo” não se fazem esperar: e ainda inovam, no caso da dramaturgia, colocando em jogo o ‘caos’ de suas próprias vidas.

     E foi assim que Felipe Vidal chegou, aos poucos, a este gênero musical que até o levou a ganhar prêmios. O primeiro “musicaos” foi em 2015. Era sobre a Tropicalia, os anos 70 - mas não se rendia a Caetano ou Gil! Lembramos bem. Vidal tratou de misturar cenas e épocas, nessa criação que se transformou em ‘ação’ e que promete se transformar em uma “trilogia paramusical”. Como o nome diz, há um caminho, um terceiro espetáculo. Não se espantem com essa afirmação, Vidal não se transformou em um “diretor de musicais”, ele apenas possui um senso afinado para o novo, e sua música e teatro são independentes do que hoje é chamado de “musical made in Brazil” – uma recriação da Broadway. Nada contra, mas Felipe parece preferir, pelo trabalho que tem apresentado, um texto próprio, feito em parceria com o elenco. Dessa vez, a historia é sobre a vida de seus atores que, por sua vez, são os protagonistas da banda improvisada! Há uma linguagem anárquica perpassando todo o espetáculo. Enquanto essa linguagem  estiver dando prazer a eles, os artistas estarão lá, falando sobre o seu teatro e a sua vida.  

    Para tanto, há uma projeção de cenas, em vídeo e tela gigantesca, contando passagens da vida 
pessoal dos que compõe a banda. E textos proferidos pelos atores. Trata-se de um ‘trabalho coletivo’ que se transforma em teatro, pela ação da palavra. E nos perguntamos: o grupo é formado de músicos, ou de atores que interpretam músicos? Para aguçar essa afinidade, Felipe Vidal ainda “problematiza” a questão, dizendo que os seus espetáculos fazem uma analogia com a ópera! Trata-se de uma ópera-rock? Se for, não o é nos moldes habituais.  


     Outro desafio do grupo: essa “máquina adaptável”, que é o homem, alavanca outro tipo de espetáculo, mostrando, nestes tempos moderníssimos, que a vida do “sapiens” tem uma impressionante capacidade de mutação, e embarcamos nessa loucura, e não sabemos se fomos ao teatro para ver uma banda de rock, ou algo que se assemelhe a uma banda de rock! Talvez o caso mais esclarecedor – se é possível esclarecer o mistério dessa “mutação” - seja partir para a análise de um ator, em particular. Escolhemos Lucas Gouvêa, que preenche o palco e nos dá a impressão de que a façanha de um ator é ser capaz de reproduzir, em perfeita mimesis, a sua habilidade musical! Será Gouvêa um músico? Independente de sua capacidade musical, sua façanha abrange essa nova capacidade do gênero humano - do artista em particular - de tornar real “esse jogo ilusório que é atuar”, deixando uma interrogação entre a plateia e o ator.

     Talvez Gouvêa, pego ao acaso, seja o exemplo marcante da linguagem de Felipe Vidal. Outros exemplos há, como Gui Stutz. Porém, esse ator veio do curso de interpretação da Uni-Rio e tem, reconhecidamente, experiência anterior de músico. Os outros seis atores também estão ligados, de certa forma, à música, o que nos dá a certeza de que essa manifestação é o “momento” do grupo, não esquecendo  que as músicas interpretadas fazem parte da historia que eles querem contar. Especialmente a censurada “Bichos Escrotos”. Até agora (2017), esse "musicaos" vem funcionado positivamente. A ficha técnica também faz parte, para incrementar esse jogo. Por exemplo, é estreita a convivência do iluminador Tomás Ribas com o grupo, o que proporciona uma facilidade tranquilizadora para a vida do espetáculo. Ribas trabalha em conjunto com o videografismo de Eduardo Souza, o Pavê, e eles reproduzem as ‘historias de vida’ dos atores. O mesmo acontece com os figurinos de Flavio Souza  (roupas discretas, negras, sem exageros, como são a dos Titãs – com algumas delas inspiradas no seu dia-a-dia), facilitando a performance. O diretor do espetáculo estabelece a cenografia, e também toma parte como músico, porém seu papel é mais o de maestro tocando o seu ‘baixo’ e dando o compasso da ação. Acertamos? Vidal faz a direção musical em parceria com Luciano Moreira (que também é ator e músico, no espetáculo). A ‘veracidade’ da performance roqueira no palco é dada pela direção de movimento de Denise Stutz, sendo a assistência de direção de Tainá Nogueira. Uma ficha técnica para ninguém botar defeito. Captação de Imagens e Making off de Luciano Dayrell e Rodrigo Costa Monteiro. OBS: Pela sua visão política, histórica e musical, “Cabeça” é um espetáculo que fica na lembrança.  

























quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"AS PALAVRAS AS COISAS"

"AS PALAVRAS E AS COISAS", TEXTO E DIREÇÃO PEDRO BRÍCIO.
NA FOTO, LUCIA BRONSTEIN - "MULHER 1"


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

“AS PALAVRAS E AS COISAS”

     É quase impossível acompanhar o trabalho de Pedro Brício sem antes ter-lhe acompanhado o caminho da criação. Tentei. Pelo que podemos compreender, ele trabalha muito com o que eu me recuso a chamar de símbolo. Mas os acontecimentos em “As Palavras e as Coisas” (título que nos remete às narrativas e interpretações de Foucault, mas apenas nos remete, o filosofo não interfere na narrativa), são simbólicos... Por exemplo: o que significa o “vômito” de seu personagens? Um insite joke, uma necessidade transcendental, ou simplesmente uma inadequação ao momento presente?  

     Devemos confessar que a colocação dada aos conflitos de seus personagens é desafiadora... Mas aí voltamos ao problema inicial, e preferimos trabalhar com o que nos é apresentado, fisicamente. Duas mulheres apaixonadas, dois conflitos a serem transpostos, e uma verdade “pasolineana” – de “Teorema?”, na terceira personagem feminina (Daniela Kupek), cujo misterio vem colocar um ponto final no desvario das duas mulheres apaixonadas.

     Mas as personagens de Pasolini são simbólicas... Como fica isso? Não devemos esquecer que a situação em que se encontram os quatro personagens é de extrema teatralidade e urgência: há um perigo de morte, e há graves acontecimentos tratados como se fossem obstáculos intransponíveis (e são, pois se trata da morte). O personagem central, o escritor Matei (Gabriel Pardal), está á beira da morte, em uma UTI. Porém, ele está – e não está - em perigo! Aliás, nunca esquecendo que o diretor Pedro Brício quis fazer, neste espetáculo, uma homenagem à atriz e colega falecida: Bel Garcia. Uma bela e sofrida homenagem, que não se deixa atingir no âmago do sentimento de desespero. Com exceção dos vômitos de alguns componentes da historia, mas os vômitos são tratados como uma doença.   

     E assim vamos, entre idas e vindas... Mas devo confessar que alguns momentos, no encontro dos três personagens, as amigas e o homem, interpretados por Branca Messina, Lucia Bronstein e Gabriel Pardal, nos levam a momentos de grande beleza (podendo a beleza às vezes ser gratuita...dessa vez não é), justamente quando seus corpos se movimentam, esculpindo imagens (destaque para Lucia Bronstein no papel de “mulher 1”. Bronstein é uma atriz da qual não podemos tirar os olhos. Aliás, o elenco desperta a atenção da crítica, mas existe algo em certos atores que passam valores subjetivos com um simples olhar, ou intenção do corpo: Bronstein pertence a essa raça. Desculpem o entusiasmo).

     Mas voltamos ao texto: a personagem “que vem colocar um ponto final à estranha situação”, (a atriz Daniela Kupek), revelando a salvação de Matei ( Pardal) - o escritor que está à morte - realiza um misterioso desfecho, tornando-se uma espécie de “destino” que cai sobre a ação, recurso, aliás, recorrente, em textos do passado. Ponto para Brício. Parece que a historia é carregada de “cenas do passado”. Enfim.

     Causa-nos estranheza assistir a algo tão contemporâneo e, ao mesmo tempo tão hermético e passadista. Estes dois (três?) adjetivos fazem parte dos textos de teatro atuais. O que podemos perceber é uma certa imprecisão, tanto nas questões que o texto levanta, quanto ao ambiente que o cerca. Dessa vez a estranheza fica com a ficha técnica, pois ela fala, na encenação, quando obedece a interfones, portas que se abrem misteriosamente, momentos que passam e retornam, em uma sensação de tempo indefinido.  
     Pois é, o cenário de Tuca faz jogo com a iluminação de Tomás Ribas. Temos também uma trilha sonora que define a ação, elaborada por Pedro Brício e Joana Guimarães. A supervisão dos figurinos (contemporâneos) é de Antonio Guedes. Trata-se de um espetáculo curioso, em busca de algo que não se sabe bem o que é. Desperta o mistério. E fica a pergunta: pode a morte ser assim tratada, tão en passant? Chega-se à conclusão de que, em teatro, sim, pode.