Páginas

sábado, 31 de março de 2018

"O REI DA GLORIA"


IDA VICENZIA
 (da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

 Anderson Cunha (Foto Rodrigo Castro)

REI  DA  GLORIA
     ... Eu gosto de escrever assim. Solta. Dessa vez é sobre o monólogo criado por Anderson Cunha, interpretado por ele mesmo, em cartaz até dia 1º de abril na Sala Espelho, Espaço Baden Powell. A encenação fala de moradores de rua e outros personagens que animam as ruas do bairro da Gloria, no Rio de Janeiro. Atenção: poderia ser qualquer rua, de qualquer bairro desta cidade confusa, mas Anderson aceitou em cheio, escolhendo esse bairro onde tantos acontecimentos confundem ainda mais essa cidade.

     Há muitos monólogos por aí... Alguns excelentes. Este é um deles. Sua construção vem de muito longe, preenchendo momentos da formação de seu autor. Composição, direção e atuação do espetáculo foram surgindo no trabalho daquele menino da Casa da Gávea, o aprendiz de ator de Paulo Betti, sempre distribuindo, para os frequentadores da Casa, um sorriso acolhedor e esperto. Às vezes a bondade se manifesta assim. Esse menino era Anderson Cunha, o autor do monólogo hoje em questão! Fiquei curiosa. Queria saber o que ele tinha para nos dizer, agora, sobre a tão dolorosa questão dos moradores de rua. E ele tem, agora, muita poesia para nos dar!

     (Mas isso não é uma crítica de teatro! Afinal, o que é uma crítica de teatro? A respeito desse assunto reforço a minha opinião sobre a liberdade do artista (pois o crítico também o é...) e levo comigo na memória o meu vale mecum, a minha liberdade! As andanças que realizei na Sorbonne, afinal, valeram para alguma coisa, pois a crítica teatral está precisando de liberdade, e os franceses sabem muito bem o significado dessa palavra...)

    Mas continuemos (entusiasmei-me falando sobre liberdade..., e Anderson Cunha nos dá uma lição sobre o assunto!).  No texto do poeta/dramaturgo encontram-se miríades de detalhes, observações e depoimentos... do autor, através de seus personagens - alguns poéticos, outros irônicos. Mas sempre sábios. Em seu texto aparecem vários tipos de seres humanos, desde o traficante que vende olhares luminosos... até o gênio invisível. Sobre essa condição de ser invisível (o homem de rua), Anderson tem um texto maravilhoso. Há Bóson, o Ser incompreendido, e o pastor autoritário (e inovador),  afinal, duas poções de uma mesma identidade! MC, o cantor infeliz. E  muitos outros personagens, alguns “esboçados”,  pois nem sempre presentes – sua voz em off – mas sempre nos fazendo pensar. E pensei, naquele momento, pois não sabia!  “Quem será o autor?”. (Gosto disso, de ser surpreendida). E nosso “complexo de vira-latas” veio a tona e me fez pensar que talvez se tratasse de algum autor estrangeiro, talvez um dramaturgo francês de vanguarda? Os autores brasileiros encenam tantos autores estrangeiros...

    (Vamos à crítica!)

     Claro, aquele olhar bondoso referido acima, a respeito de Anderson Cunha, tem uma explicação: trata-se de um poeta! E ele nos conquista definitivamente quando o  “louquinho de cima de  árvore”, casa escolhida por ele, com medo das enchentes. Bóson é seu nome - se revela um poeta em sua maneira de ver o mundo. Sua visão é coroada pela descrição de um pássaro! Que momento lindo! Um poeta descrevendo a conformação de uma ave, seu porte, seu canto! O “quero-quero”,  com aquele grito  valente, independente!  E a descrição do poeta: “seus pés parecem estar vestindo saltos altos" – e um sapato vermelho! O topete do quero-quero, tão radiosamente construído (ele descreve os tons com que a cabeça do pássaro foi pintado, do topete até o bico), reflete a sua personalidade. Só ouvindo Bóson, o poeta (que leu Shakespeare inteiro quando tinha quatro anos!).

     Que fim levou esse poeta? E, também, que fim levaram o cantor MC, ou o Pastor, que está procurando o “homem adjetivo”?!  Ou Rico Star, o traficante de beira de rua, vendendo objetos usados, na calçada do bairro da Gloria daí o título da peça:  “O Rei da Gloria”. Os moradores de rua – todos  reis!? 

     Mas continuemos.  Temos um grande dramaturgo entre nós! Lembram da historia da virgem grávida que se transformou em comoção da cidade? E Rebeca, a apaixonada que se transforma em pesadelo para o cineasta que registra os moradores e os acontecimentos do bairro?
     Anderson se transforma sutilmente nestes vários personagens. Há vozes femininas em off. Nada contra as mulheres, mas sim contra a má interpretação dada à mulher, na nossa sociedade. Ah! Essa mania que as mulheres têm de fazer, do amor, o ar que elas respiram! E o cineasta chamou de Rebeca, a sinestésica (em poucas palavras, a que transforma, desfigura, a emoção ...)  e conseguiu se ver livre dela!

     Todos os personagens possuem uma “amarração” final – o que não deixa de ser um desafio para o autor. Mas não vamos nos preocupar se MC se suicida, ou se Bóson é reconhecido, ou não (parece que lhe dão um choque elétrico, irreparável, como estes que dão nos seres ultrassensíveis... os loucos!). Vários destinos são explicados, no final. Pode ser modificado - ou não – o final. Tal decisão compete ao autor. Na verdade, o público fica impressionado com a perfeição entre ator e espetáculo. NÃO PERCAM!  




quinta-feira, 29 de março de 2018

"EU É NÓS"



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

Suzana Saldanha em "EU E NÓS", monólogo de sua autoria, direção Luiz Artur Nunes. (Foto de Gilberto Perin) 

EU  É  NÓS

     A partir do livro “Quem pensas tu que eu sou?”, do psicanalista Abrão Slavutzky, mais propriamente da palavra “desamparo”, encontrada no referido livro, Suzana Saldanha elaborou o texto com que nos brinda em seu monólogo “Eu É Nós”. Como acontece com os artistas, Suzana ama as palavras e, no programa especial elaborado no Teatro Maria Clara Machado – “Mulheres em Cena”, em homenagem ao Dia Internacional  da Mulher, 8 de março - a atriz nos mostra a sua maneira de ver a vida.  Escolhemos Suzana para fazer os comentários desta programação, e não nos arrependemos da escolha, pois esta atriz se comunica com o público de maneira envolvente, acolhedora.

     Já no início do espetáculo Suzana brinca com as palavras, ao receber o público amigo que lotou o teatro. Orientada por Luiz Artur Nunes que, mais que um diretor foi um amigo e um observador da interpretação de Suzana e de seu mundo - a atriz faz colocações preliminares para dar inicio ao espetáculo, identificando o público com  algumas “inside jokes” e brincadeiras, saudando a sua presença. 

     Entramos no espetáculo, pra valer, quando Suzana nos revela a maneira de seu pai interpretar o teatro pós-moderno – “algo que se coloca em um liquidificador (e o pai enumera as escolas de teatro, concluindo): “e o resultado está lá”. Essa é a essência do pensamento de seu pai, algo muito próximo do que realmente acontece com este teatro pós-moderno... Outra narrativa (esta surreal) é a de seu nascimento, no qual a própria ‘nascitura’ participa ativamente, não só consentindo em colaborar com o mesmo: um bebê vindo ao mundo, e pensando a respeito daquele acontecimento! 

      Convenhamos, a fala criada pela atriz é algo inesperado, em termos de espetáculo autobiográfico!

       Suzana Saldanha está vida, muito viva, em sua “rentrée” carioca. Às vezes, em seu figurino e em seu gestual ela nos leva à lembrança de um clown. E há algo, nesta direção, que nos toca profundamente. É quando ela resolve se despedir como Charles Chaplin, com a sua música, seu figurino e seu gestual. E surge algo que marcou as nossas vidas: “Limelight” – e a música do filme! “Luzes da Ribalta”... e o refrão que não nos deixa indiferentes: “Para que  chorar o que passou/ Lamentar perdidas ilusões?/ Se o ideal que sempre nos acalentou/ Renascerá em outros corações”...

     Este ideal está sempre vivo no coração de Suzana! Bom retorno, querida atriz!  O cenário? Uma mesa, um abajur e uma cadeira! Bom para transportar pra todo lado. O figurino é quase a sua roupa do dia a dia. Também imaginado por Suzana.         

     Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Secretaria Municipal de Cultura criaram uma programação especial, no Teatro Maria Clara Machado (curadoria de Antonio Gilberto, diretor artístico da casa) para cobrir todo o mês de março. Estiveram nesta programação Marcia do Valle ("Um Ato"), Ester Jablonski ("Silêncios Claros"), Ana Achcar ("Uma Ciranda para Mulheres Rebeldes"), e muitas outras atrizes. Sentimos muito não estar presente em todas as apresentações. Fica a minha homenagem por este dia 8 de Março.         



terça-feira, 20 de março de 2018

"PRESSA"

Cena de PRESSA, autoria Octavio Martins, direção João Fonseca (Foto Divulgação)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
  
"PRESSA"
     Estavam todos lá... naquela dança das cadeiras: o empresário, o garotão, a esposa, a mãe, o subordinado, a garota grávida, o "irmão na fé",  e outros mais - passando  o  seu  recado. A melhor notícia de todas é que está de volta o grupo que já foi de Antonio Abujamra: "Os Fodidos Privilegiados", encenando a peça "Pressa", escrita pelo paulista Octavio Martins (que já foi ator do grupo Latão, que já produziu Gorki, Koltés, e outros da pesada), retornando ao Teatro Dulcina, sua primeira casa. Dessa vez Os Fodidos... não "ocupam" o Teatro, só fazem uma temporada, completando o que se transformou na dança dos teatros, fenômeno do presente, do séc. XXI. Há quem reclame desse rodízio, com exceção do público, pois se você não conseguiu assistir a uma peça que lhe interessa não precisa ficar aflito, pois ela retornará...

     É a primeira vez que Martins é encenado no grupo. O autor surge das mãos hábeis de João Fonseca, porém "o diretor que substituiu Antonio Abujamra" não está sozinho na direção, e não é a primeira vez, mas dessa, ele conta com Nello Marreze na direção e também na cenografia.

        A ação se abre com as cadeiras, que fazem parte do cenário, e um emaranhado de cor laranja como pano de fundo, relembrando a antiga divisão palco/platéia, pois ele funciona, em dois momentos, e com a ajuda da luz, como uma verdadeira cortina, cujos efeitos são surpreendentes, principalmente quando se sustenta na luz potente dos faróis de Luiz Paulo Nenen e Tiago Mantovani, na hora do atropelamento!

     Gostaríamos de nos estender, um pouco, sobre a curiosa influência que Nelson Rodrigues ainda continua a produzir sobre nossos artistas, principalmente no caso de João Fonseca, que trabalha com o despojamento e a força de Antonio; e as suas escolhas de peças para encenação têm a vitalidade de um Nelson. O ritmo avassalador é o grande toque destes três artistas. Vivi a surpreendente experiência de assistir ao mesmo espetáculo, "Pressa", em ritmos diferentes. A primeira vez que o assisti havia um compasso a menos no ímpeto da narrativa. Da segunda vez nos surpreendeu a avalanche de retornos e atuações enfatizadas que os atores trocavam entre si. A segunda vez, com certeza, foi a mais impactante. O texto foi entregue, e mostrou o que se perpetua no gênero humano: a avalanche de reações contraditórias.
     Em pouco mais de uma hora vemos passar o carbono de nossa realidade,  se desdobrando, qual um palimpsesto (adoro essa palavra!), sobre nós. Grande Nelson, nunca esquecido dos que vieram depois dele!

     E não vamos fazer disso nenhum mistério. Entre os possíveis comportamentos que acabam sendo registrados na peça há o mais explícito deles, e o seu tema é o dinheiro que, finalmente, acaba passando de mão em mão para ir se agasalhar no bolso do empresário esperto. As historias vão se fazendo e refazendo, com a "pressa" que lhe promete o titulo, a qual é captada, sem perdão, no decorrer daquele tempo que passamos na platéia do teatro.        
     
     Os atores, cada um deles, tem ocasião de mostrar a sutileza (ou falta de), emprestada ao personagem. Há momentos hilariantes, como o da Mulher 1 (casada com o empresário manipular (Alexandre Pinheiro), e interpretado por Paula Sandroni), quando beija a medalha da correntinha de ouro que acaba de "tirar" do pescoço da Velha (Thais Portinho). A personagem da Velha está em idade tão avançada que não consegue mais reprimir os dejetos de seu organismo, que vão acabar "batizando" a beijada (pela Mulher1) correntinha... Há outros fatos constrangedores, e surpreendentes, como o da Esposa Aflita (Filomena Mancuzo); a da Mulher 2, de inspirada criação de Rafaela Amado, cujo personagem atinge a extremos, sendo (ou parecendo) inteligente na cena do jogo, para se tornar, em outra cena, uma fanática em Cristo... E tem Roberto Lobo, com seu tempo preciso, interpretando o Marido 2 - uma raridade seu personagem, pois ele joga o jogo do marido apaixonado pela esposa!

     Como o autor, Octavio Martins, é muito bom, não há personagem que não fique bem realizado. Assim, temos o Marido Calmo (Diogo Camargos), o Rapaz Preocupado (Rafael Coimbra) que contracena com o Rapaz Feliz (Thiago Marinho) e com a Garota Gravida (Mariah Viamonte), essência da garota sem rumo.  ... E por aí vai. João Fonseca está em cena interpretando o pastor evangélico e desenhando, com precisão, esse nosso absurdo presente. Aliás, essa peça é um registro de nossa condição atual (eterna?). Não percam!   

FICHA TECNICA (não citada no texto): Figurinos (atuais) de Victor Guedes; Trilha sonora (muito boa), de João Fonseca; Programação Visual:  Mauricio Tavares; Produção: Filomena Mancuso.
     

domingo, 18 de março de 2018

"PARA ONDE IR"

Yashar Zambuzzi  em "Para Onde Ir", direção Viviane Rayes. (Foto Lu Valiatti)   

IDA VICENZIA
(da  Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

PARA  ONDE  IR
     ... E volto à questão do espaço cênico. Há, no Rio de Janeiro, pequenos teatros que passaram a ser cult devido aos espetáculos neles celebrados. No caso, e especialmente, o Espaço Rogerio Cardoso, no "porão" da Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. Trata-se de um espaço privilegiado, pela intimidade que transmite entre a cena e  o espectador. Em um passado recente tivemos oportunidade de constatar a experiência, através dos mesmos artistas que agora estão em Para Onde Ir.
     Blackbird, o texto do passado em questão, de autoria de David Harrower, nos colocou diante de questões humanas, como a pedofilia.
      Para Onde Ir  nos coloca diante de outras questões humanas.  
      Viviane Rayes e Yashar Zambuzzi, cuja intervenção na cena teatral é conhecida como  "teatro de ação", abrem o espetáculo para acontecimentos do presente, às vezes inspirado em  cenas do passado. Eles operam com a ficção - dramaturgia ou não - refletindo a vida real. Em sua última encenação, Para Onde Ir, (adaptação de Zambuzzi para os textos de Dostoiévisli, Rimbaud e Brecht), está incluída a verdadeira tragedia que se apoderou do povo brasileiro nestes últimos anos, e da qual vemos o reflexo no desolador espetáculo dos moradores de rua. Vemos o povo brasileiro em abandono, como cidadão e como ser humano. Zambuzzi pesquisou essa realidade.
     Em resumo: ao acompanhar a montagem destes dois artistas, constatamos que se trata de um caminho difícil, onde o solidário e o generoso se expõe. Essa transposição do bêbado, em Dostoiévski, para os acontecimentos brasileiros é de ligação difícil, mas não impossível. Não esqueçamos que o autor russo lutava contra vários vícios. O que importa, agora, é que o grande romancista era grande conhecedor da alma humana e Zambuzzi-Rayes souberam operar este conhecimento, em favor do espetáculo. 
     Em Para Onde Ir há uma homenagem de Zambuzzi a Bertold Brecht com o refrão da poesia A Infanticida Maria Farrar,  que acompanha e dá vida ao espetáculo.
     Eis o refrão - "Os senhores, por favor,/ não fiquem indignados,/ pois todos nós precisamos de ajuda,/ coitados.//" - e ele é repetido, a cada "transgressão" do personagem. Talvez uma solução do adaptador para mostrar o lado escuro de nossas almas?
     O texto do espetáculo é rebuscado e difícil de acompanhar, apesar de sua vibração poética. Tal vibração nos faz admirar a presença de grandes poetas... e da generosidade do ator!
     Aliás, uma das características marcantes do espetáculo é a generosidade com que o ator abre seu coração, e sua voz, para levar ao público a miséria do protagonista, e tentar compreendê-la! Também é sensível a estréia de Viviane Rayes na direção, completando com dignidade a tarefa que se propôs.
      Estamos em um bar-teatro, muito bem armado pela cenografia (de Zambuzzi e Rayes), onde objetos antigos convivem com um envolvimento de adega - com suas rústicas paredes de pedra. O  cenário também é idealizado pelo casal de artistas. A registrar, na noite da apresentação do espetáculo em seu penúltimo dia em cena, a presença de uma  senhora dotada de natural talento para expressar uma resposta aos acontecimentos. Registrada a presença, o ator contracena com a senhora (alias, Smerdiákov contracena com o público em geral), e é impressionante a compreensão deste público ao sentimento de exclusão do personagem (exclusão em todos os aspectos, principalmente a social) transmitido pelas cenas.
     Na ficção, o personagem é extraído do romance Crime e Castigo, do autor russo, com passagens pelo inferno de Rimbaud. Interessante observar que, através da pesquisa para criar o personagem, o ator Yashar Zambuzzi conversou com moradores de rua. E  testemunhamos, no texto que nos é apresentado, a inclusão do catolicismo desenfreado do autor russo. Catolicismo esse que encontra eco nos moradores de rua brasileiros. Não é à toa que somos um país católico... mas o catolicismo de Dostoiéviski, na proporção do impacto da cena, impressiona pelo seu desespero.
      Eis um ótimo espetáculo que nos deixa, talvez para sempre, porque (se imagina), não é todo dia que um ator se propõe a tanta submissão ao personagem. Em compensação, teremos o retorno de Blackbird, em futuro não muito distante. Feliz retorno! Os espetáculos de Rayes-Zambuzzi são sempre carregados de bom teatro! Não percam!
FICHA TÉCNICA: Além dos já citados temos - Iluminação: Elisa Tandeta; Trilha Original: Chico Rota; Figurinos: Rogerio França; Ilustrações do Programa (ótimas): Raphael Jesus; Fotos de Cena: Lu Valiatti; Idealização: Te-Un TEATRO; Produção: Rayes Produções Artísticas; Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias.



domingo, 4 de março de 2018

"GRITOS"


IDA  VICENZIA

( Associação  Internacional de Críticos de Teatro - AICT)

(Especial)

                                GRITOS, um concepção de André Curti e Arthur Ribeiro encenando
                                       historias narradas por marionettes e atores (Foto Divulgação).

GRITOS
      O premiado espetáculo que nos visita é uma experiência teatral inusitada, com suas marionettes e seu não texto. Gritos - uma concepção de André Curti, Artur Luanda Ribeiro e a marionetista russa Natacha Belova - nos leva a percorrer várias formas de teatro repletas de poesia e horror. São três narrativas, desenvolvidas por André, Artur, e os bonecos que se mesclam com o corpo dos atores: Louise; O homem; e Kalsun.
     As modificações vão ocorrendo com as mudanças de luz e do cenário, composto como uma instalação artística, onde estruturas nuas de colchões de mola, "vão se transformando em objetos insólitos". O impressionante, em Louise, é a sensação de estranhamento que se levanta, quando a cena começa, carregada de intenções. Pensamos, a principio, que se trata do relacionamento sufocante entre mãe e filha (ou filho?), que a principio parece ser a oferta da cena. A incerteza que desperta o inusitado  acaba nos remetendo a uma historia de horror, impressão de desmembramento do corpo de Louise, gargantas sendo cortadas, imagens que se esfacelam, tudo nos levando à presença do teatro de grand guignol !!!
      O segundo "poema" é o esfacelamento do homem, e a impressão continua, reforçando a sensação de teatro aos pedaços. Para os atores trata-se de "um poema gestual entre o sonho, o onírico e o absurdo". Claro, pode ser. O que faz sentido é a força das imagens que os dois artistas conseguem, com este experimento absurdo que acaba por nos abstrair do seu componente humano. É impressionante a semelhança dos atores com os personagens masculinos que manipulam!
     A última imagem deste "Grito 1" é a mãe solitária, na cena que se dilui, dando-nos a impressão de um "ser humano" - e não um boneco - abstraído dos acontecimentos que o rodeiam. Mais uma vez a sensação de realidade ronda o teatro das marionetes.
     O Grito 2: "O homem" - situação insólita de uma cabeça presa em uma gaiola. Os dois atores estão em cena, afastados pelo cenário das paredes metálicas: um carrega o corpo sem cabeça do homem, e o outro ator equilibra uma cabeça, o que transmite uma sensação de angustia ver aquelas partes dissociadas (mais uma vez a sensação do teatro de grand guignol, salvaguardando os excessos da cena francesa da virada do século XX).
     No espetáculo, abstraindo a cena grotesca constatamos a expressão facial dos bonecos e se torna quase impossível dela abstrair a condição de seres irreais. Somos guiados pela perfeição de suas expressões, a ponto de nos deixar envolver poe elas. 
     Temos a impressão de que os bonecos possuem vida própria! Mais uma vez, a narrativa do esfacelamento do homem! Há, entretanto, nos gestos dos atores, na concepção do cenário, na iluminação que a tudo modifica, um clima poético que nos trás estranhamento e que continua a se desenvolver em suas pausas, silêncios, e a música evanescente. 
     "O homem" em cena, a segunda historia é a que menos carrega emoções, abstraindo a cena inicial, quando as duas metades do homem entram em cena, em um lusco-fusco e um crescendo de pássaros, quando seus braços (iluminados oníricamente) se assemelham a bicos de aves gigantes!     
     No Grito 3 - "Kalsun" - conta-se uma historia que nos enche de dor. Inicialmente somos carregados pela beleza da cena oriental, com a mulher envolta em seu xador, e seu olhar de expressão humana! Nesta historia aparece viva o confronto com a dor! Que historia terrível nos é contada! Dizem os atores que se trata de uma historia de amor. Sim, da dor do amor. Trata-se do esfacelamento de uma pequena vida (o amor), a infância!
     ... e eis que retorna o terrível teatro do grand guignol, com os pedaços da carne da criança a serem "reorganizados" para terminar a cena! 
      A mala gira, escapando da mão materna, e "o menino de olhos humanos!" aparece, temeroso do momento em que sua vida lhe escapa!
      Ficamos, mais uma vez, surpreendidos com o poder de comunicação deste espetáculo sem palavras. E, um fato que nos deve surpreender: os atores se envolvem emocionalmente com seus bonecos humanos? Impossível não se envolver, tal a perfeição da oferta. .... Aconselha-se, para quem ainda não assistiu a Companhia Dos à Deux, a não perder a essa nova oportunidade que se apresenta ao público carioca. Vida longa ao trabalho de Arthur, André e Natasha!
     Registramos da Ficha Técnica que a dramaturgia, direção, cenografia, interpretação e manejo dos bonecos são de Artur Luanda Ribeiro e André Curti. Criação musical: Fernando Mota.  Pesquisa e criação dos bonecos (além da já citada Natacha Belova), temos a colaboração de Bruno Duarte, e assistência de Cleyton Dürr.  Assessoras de Imprensa, no Rio: Bianca Senna e Paula Catunda         
      
      

sábado, 24 de fevereiro de 2018

"GRANDE SERTÃO: VEREDAS"

              "Grande Sertão:Veredas", de Guimarães Rosa. Bando de Jagunços. Em primeiro plano Hermógenes (Leon Góes) assassino                         de Joca Ramiro. (Foto Roberto Pontes)


IDA  VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

     Ah! Pois... quem diria que eu estaria assim, virando e revirando aquele programa de 93 fotos dos ensaios, e mais fotos da ação, e aquela força das imagens, dos acontecimentos pulsando nas expressões dos atores: ora alegres, ora desesperados. E aquele nosso medo de entrar no ritmo de Guimarães! Sim, "Grande Sertão: Veredas"...
    Foi assim que fiquei olhando e re-olhando. Escrevo, ou não escrevo? Tanto já se disse sobre Guimarães Rosa! Aí fiquei contando as vezes que Hermógenes aparece nas fotos, quase 10 vezes... Preparando-me. E Riobaldo? E Otacília? E Diadorim...? A atmosfera começou a me contagiar... porque ninguém sai ileso daquele espetáculo de Bia Lessa e Egberto Gismonti... e  Fernando Mello da Costa... e tantos outros! E na Produção Internacional Emilio Kalil! Viajará, então, Riobaldo e seu grande sertão?
     Ah! As fotos da ação! Será que Oskar Metsavaht fotografou aquelas cenas? Não, parece que ele só fez as fotos da bela Diadorim. Foi Alexandre Nunis quem fez as incríveis fotos da ação! E os colaboradores? Marilia Rothier, a minha querida orientadora! E Silviano Santiago! E tantos outros. Já começo a achar que vou escrever alguma coisa... E registro Geovana Martins, Nina Braga e Pamela Leite, e tantas outras! na confecção dos bonecos. É um longo assunto, essa montagem!
     E Bartholo dizendo que o amor entre Riobaldo e Diadorim era como vagalumes cortando o escuro da noite... ou algo assim, poético e verdadeiro! Um olhar, um roçar de mãos, um alarme, uma faísca! E a gente, mesmo sem querer, fica poético! Imagina-se como será atuar em semelhante espetáculo. Diz a diretora: "deixe vir a emoção..." (ou algo assim). E, todos os dias a emoção se constrói, talvez inesperadamente. Sim, inesperadamente, chegando à compreensão de quem assiste.     
      É assustador ler Guimarães Rosa, mesmo sem Bia Lessa nos encaminhando com o seu olhar. Quando lemos Rosa, principalmente Grande Sertão,  ficamos com aquele ritmo, aquela fala  nos ouvidos, e embarcamos nela. E aí compreendemos a sucessão de imagens (há forte impacto, no espetáculo, com a sucessão de imagens, provocando, mesmo, o sentimento de estar vendo se desenrolar uma instalação artística e um encontro com a morte...).
     Como sabemos, Grande Sertão é a narrativa do jagunço Riobaldo para um visitante do sertão. A fala contínua do narrador vai mostrando como são os "viventes" das terras das Gerais a caminho da Bahia. Vai narrando seus sonhos, suas lutas e suas mortes. O centro da narrativa é a vingança dos jagunços pela morte de Joca Ramiro, um chefe querido Os assassinos são Hermógenes e seu bando. Não vemos Leon Goes desde "Os Gigantes da Montanha", de Luigi Pirandello. Ele é Hermógenes! Ou o que imaginamos que seja Hermógenes, com sua fala inspirando a guerra! E nunca vimos Caio Blat em ação. Ou melhor, temos a impressão de nunca tê-lo visto. Ou melhor ainda, tivemos um encontro surpreendente! Menino, homem, sertanejo, ator. Tudo se une neste ator de muitas falas, neste Riobaldo que domina a ação! E depois se destacam as Luiz / sas!  - Arraes e Lemmertz. A Arraes, nas famosas fotos do ensaio vê tolhidos os seus nervos, a sua resistência, e ela sufoca de tanta emoção! Na legenda da foto (ensaio 56), declara alguém: "Nova fase. A penúltima antes da estréia. Já escolhemos o que queremos, agora vamos lapidar, ter controle dos códigos". É Bia Lessa quem fala, em suas geniais interferências de "joalheira" da encenação.
     E saudamos a recém-chegada Luiza Lemmertz, que mostrou garras afiadas para estabelecer a luta entre Reinaldo/Diadorim e seu inimigo Hermógenes, assassino de seu pai, o grande (e bondoso) sertanejo Joca Ramiro. Luiza se integra aos poucos, no sertão carioca! E tem Clara Lessa, Daniel Passi, Elias de Castro, Lucas Oranmian, e tem, e tem... Não reproduzirei frases de Rosa, quem quiser ouvi-la vá assistir a este inacreditável espetáculo!

MAIS ALGUÉM DA FICHA TÉCNICA? Impossível transmiti-lo. Basta saber que tem uma Martins Costa (Ana Luiza), como colaboradora, e Amália Lima como assistente de direção. Ana Souza cria os figurinos. Andreus Oliveria é o encarregado da estrutura cênica, junto com Eliseu Lopes. Bia Lessa, além de ter sonhado (e concretizado) seu sonho de montar e dirigir Grande Sertão, adaptou o texto e fez o seu desenho de luz. O registro fotográfico é de Roberto Pontes junto com Roberta Dittz. Eles fazem a edição do registro audiovisual - uau!- !  Há, ainda, uma lista infindável de agentes técnicos, e também os que merecem agradecimentos especiais. Nós agradecemos à Bia Lessa!            

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

"ALICE MANDOU UM BEIJO"

Suzana Nascimento (Jandira) e Vivian Sobrinho (Oneida), em "Alice mandou um Beijo", texto e direção de Rodrigo Portella) (Foto Divulgação) 

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
      Depois de assistir Tom na Fazenda, no Rio de Janeiro, fiquei intrigada com o olhar do diretor Rodrigo Portella, e resolvi assistir  Alice mandou um Beijo, do qual ele é autor e diretor. Em "Alice...", Portella resolveu lembrar momentos de sua infância em Três Rios (RJ), e estabelecer o seu texto. Interessante notar que ele, Rodrigo, não se transforma em personagem saudoso, ou magoado, relembrando um tempo. Muito pelo contrario, o que podemos observar em seu texto é apenas a observação de uma família do interior, com suas peculiaridades.  
     Como sabemos, há famílias e famílias. No caso de Rodrigo, há o aporte de um de seus membros ser "anormal em excesso", possuindo um defeito difícil de ser combatido, um autismo de grau elevado... e ativo! - (excelente desempenho de Luan Vieira). Em vista da "anormalidade" de Roberio (Luan), todos os outros membros da família se sentem magníficos, tentando colaborar para o seu restabelecimento.
     Ora, o fato de os membros da família se sentirem normais deixa-os livres para interferirem na "normalização" do menino. Este movimento em torno de Roberio vem a ser a "costura" da peça, tornando-se (o movimento)  obsessivo. Mas quem já não presenciou obsessões até nas famílias mais sensatas? Conviver não é fácil, daí o óbvio.
     Mas Roberio sabe nos surpreender, e a cena final "se rebelando contra a chatice da família ao querer dar-lhe "festa de aniversario", é muito boa. Embalado na tentativa de compreender o menino está seu tio postiço Oswaldo - viúvo de Alice - (interpretado pro Ricardo Gonçalves).
     O elenco é excelente, sutil em sua loucura, pois sem essa qualidade - a sutileza louca, diabólica! - a peça não se sustenta. Não que ela não seja boa, que sua escrita não tenha qualidade - tem - mas o assunto já foi explorado de diversas maneiras. Aliás, as historias são sempre as mesmas, o que as diferem umas das outras é a sua maneira de contá-las. Ponto para Rodrigo.
     Sigamos: há Jandira (Suzana Nascimento), nos matando com aquela sua disposição de ser vítima. Há a "hiena" Oneida (interpretada por Vivian Sobrinho), que é destinada a se dar bem na vida (será?). E, por último, mas não menos presença forte, Marcos Árcher, interpretando o pai. Nenhum dos atores perde a medida do que está fazendo, dizem que isso é mérito da direção, deve ser, porque Rodrigo Portella deixa a sua marca. E há a cena da água, uma delícia, onde tudo se acalma. E há a cena do giz, que a tudo desloca.

     Devemos acrescentar que, como escrita teatral, o texto de Portella serve ao que se propõe. E temos uma ficha técnica excelente: Trilha Sonora de Leo Marvet. Iluminação Renato Machado. Figurinos (atuais) de Daniele Geammal. Cenografia (uma sala de jantar "tipique"), de Raymundo Pesine e Rodrigo Portella. Produção Executiva: Maria Albergaria. Assessoria de Imprensa: Catharina Rocha.